30 março 2014

Não se trata apenas de um corte de cabelo...

Foto: Mara Carolina



“E eu sinto a menina brotando da coisa linda
Que é ser tão mulher
Oh santa madura inocência

O quanto foi bom e pra sempre será”



(Gonzaguinha)













Amores crespos, hoje temos mais um encontro no nosso blog! ;) E com nova história capilar de uma flor convidada. Dessa vez e super especial, vem escrever pra gente a flor mais que querida Elaine Rapôso.  Acompanhem:


"Hoje, percebo que algumas mudanças importantes na minha vida começaram sem que eu as planejasse. Com a minha transição capilar foi assim... Num mês, deveria fazer a escova inteligente e não a fiz, o salão ficava em Penedo e eu estava sem tempo de ir de Maceió para lá. É que sou fiel e cortava o cabelo no mesmo salão, aliás, com a mesma pessoa, há muitos anos. No mês seguinte, a grana estava curta... Depois pensei: “Ah, quer saber? Não vou alisar mais nada!” Foi assim que comecei a minha transição capilar sem nem saber que estava entrando nesse processo.

Desde então, passei por vários momentos difíceis: as pessoas estavam acostumadas ao meu cabelo impecavelmente alisado, sempre arrumado, e a raiz crescida incomodava a muita gente. Comecei, então, a me questionar o porquê de uma raiz crescida incomodar tanto. Passei, então, a perceber ainda mais claramente que há uma imposição, principalmente da mídia, para que as mulheres adotem um padrão de beleza (cabelo liso) que se disfarça sob vários argumentos, como o de que o cabelo liso é prático para a mulher que trabalha e corre muito. No meu caso, esse argumento funcionou por muito tempo. Nunca fui vaidosa a ponto de escovar e fazer chapinha nos cabelos e detestava o salão: ia lá uma vez a cada três meses, alisava meu cabelo, voltava cheia dos produtos (xampu, condicionador, hidratação e ampola cheios de parafina e outras coisas... Meu Deus!); em casa, lavava o cabelo duas ou três vezes por semana e hidratava uma. 

Bem... Fui deixando o meu cabelo crescer e acalentando o sonho de descobrir como ele é, de verdade. Sem olhar para fotos de antes dos doze anos, eu nem me lembrava de como era o meu cabelo de verdade, ao natural. Aos doze, meu cabelo, que era liso, começou a mudar e eu ganhei um alisamento da minha tia, sem o conhecimento da minha mãe. O mesmo aconteceu com minha irmã, mas no caso dela foi mais grave, ao menos na minha opinião: minha irmã tinhas os cachos naturais mais lindos da paróquia... 
Durante a transição, com a raiz aparentemente alta.

Passei por umas fases difíceis, em que achava o meu cabelo feio e não tinha nem vontade de penteá-lo. Algumas vezes, fui dar aula com ele assanhado e preso: tadinhos dos meus alunos... No entanto, isso não me incomodava... Na verdade, para ser sincera, as minhas fases de extrema vaidade sempre surgiram em momentos de crise. Paradoxalmente, eu começava a cuidar demais da parte de fora, porque na parte de dentro algo estava mal resolvido, mas isso não significa que, quando estou bem, não ligo para a minha aparência. O fato é que, quando estou bem (eu e meu jeito Poliana de ser), costumo me achar linda. E pronto! 

O problema é que, durante a transição, eu estava num desses momentos de crise e estar com os cabelos feios, ressecados, tendo de aturar as pessoas querendo que eu voltasse a uma fase que eu não queria reviver (a fase cabelo liso) fez a barra pesar mais. Eu já estava a ponto de desistir, quando reencontrei a Tamires, minha Tam Tam, e ela disse a palavra mágica, aliás a sigla: bc! Foi uma enxurrada de informação: transição, umectação, cronograma, bc... Socorro! Eu não conseguia entender tudo, dava preguiça até de pensar, mas, aos poucos, fui descobrindo que esses cuidados, e a mudança que eles implicavam, estavam associados a uma postura política com a qual eu já concordava, mesmo sem a formular conscientemente. Então, apaixonei-me pela ideia! Decidi: Tamires vai fazer meu bc. 

A insegurança, no entanto, não me permitia dar o passo final e cortar o cabelo, marquei e desmarquei mil vezes. Vários medos misturavam-se: como vai ficar meu cabelo? E se eu não tiver cachos bonitos? E se eu me arrepender? Depois de cortar, não tem mais volta... E aí, do mesmo jeito que comecei a transição sem planejamento, fiz o bc num impulso: a delícia de ser ariana... Tam olhou meu cabelo e disse: “Lala a raiz está grande e é linda. Eu estou com a tesoura aqui. Vamos cortar?” Deixamos os rapazes na sala, fomos para outro cômodo e começamos a cortar meus cabelos. Eu me sentia num processo que misturava alegria e um sentimento de libertação...

Cabelo cortado, cachinhos lindos e definidos, fui mostrar o resultado para o amado. Ele foi a pessoa que mais me apoiou na transição, mas não estava preparado para o bc. Como prepará-lo, se eu mesma não estava pronta? O homem ficou mudo, enquanto eu pulava feito uma cabrita feliz e deixava, aliás, quase exigia que todos brincassem com meus cachos. Já em casa, ele me pergunta: “Cortou o cabelo sem nem me consultar?” Na hora, pensei na clássica resposta malcriada: o cabelo é meu! Depois, decidi não dizer nada, o cabelo já estava cortado e brigar não traria meu cabelo de volta (nem eu o queria), também não nos ajudaria em nada. 

Cachinhos de volta! Passar 8 meses esperando pra cortar valeu à pena! :D
Os dias foram se passando e essa situação foi se resolvendo com algumas conversas. Cachinhos aceitos, novos conflitos: estou na fase de me sentir linda, exuberante, e isso atrai a atenção das pessoas, homens e mulheres. Foi a vez do meu companheiro entrar em crise e não saber lidar com isso: ele mesmo disse que estava com ciúme, porque todo o mundo me olha. Aí complicou: o que eu faço? Não sabia o que fazer e não fiz nada... Conversávamos sempre e o tempo foi fazendo o papel dele. As coisas foram voltando para o lugar... Hoje, meus cachinhos ganham afagos cuidadosos: “acariciar cachinhos exige cuidado para não machucar” (palavras dele). E eu fiquei pensando: “é assim com todos os afetos”. 

Meu bc acabou de completar um mês e eu percebo as mudanças no meu cabelo, mas percebo, ainda com mais clareza, as mudanças que ele provocou em mim. Assumir meus cachinhos é um exercício de reencontro comigo mesma e eu gosto dessa mulher que estou reencontrando. Além disso, esse ato, que agora é cada vez mais consciente, tornou-se uma pauta de luta. Afinal, como vou defender a liberdade das mulheres e dos homens nos planos políticos, sociais e simbólicos se eu mesma era escrava dos padrões de beleza que a mídia impõe? 

Durante o Encrespa Geral Maceió no dia 23/03/2014.
Toda essa mudança ainda me trouxe uma nova consciência: eu posso, sim, ser inteligente e bonita e mostrar que tenho consciência disso. Há um momento no meu dia, em que meu compromisso sou eu mesma e eu amo, cada vez mais, me ver. É... A praticidade dos cabelos lisos não me deixava parar diante do espelho e contemplar minha própria beleza. Agora, eu a contemplo, eu me contemplo, e me cuido, me arrumo, me enfeito... E digo mais: mundo machista que afirma que a mulher tem de ser bonita ou inteligente, cuidar do corpo ou da cabeça, dá licença! Seus argumentos preconceituosos e machistas não funcionam comigo. 


Esse processo de mudança também fez com que eu observasse ainda mais as meninas à minha volta e eu estou gostando de ver cacheadas e crespas em toda parte. Amei também descobrir que Silvania Lima, amiga de infância, resolveu dar o mesmo passo e entrar em transição capilar. Tivemos uma conversa, na casa da minha mãe, e eu gostei de fazer com ela um pouquinho do que Tamires fez comigo: falei que esse é um caminho que tem suas pedras, mas as flores, em forma de cachos, não demoram a chegar. É preciso ter persistência, mas carece, principalmente, de ter paciência.

Cada pessoa tem seu próprio ritmo e é importante respeitá-lo. Falo para todo o mundo da minha experiência, deliciosa experiência, mas não imponho nada. Minha irmã continua linda com seu cabelo liso, essa é a escolha dela. Fiz o bc depois de oito meses da última química e não acho que meu parto foi prematuro, mas acredito que outras meninas precisam de mais tempo. Algumas corajosas, por sua vez, fazem o bc com três meses de transição. Cada uma com sua escolha, cada uma com as consequências dela: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (ê, Caetano).



Elaine tem 31 anos (quase 32, disse ela), é professora de Língua Portuguesa e Literatura, do Instituto Federal de Alagoas, doutoranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Interessasse-se por questões de gênero. Ama e é amada. ♥ 

4 comentários:

  1. Amei ! Muito bacana a sua trajetória Elaine feliz de quem consegue se ver e se libertar dos padrões impostos. Parabéns.

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  2. Parabéns, Elaine!!
    Cachinhos lindos!
    bjks

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  3. oi foi uma das melhores historias que li, parabéns, estou na transição e com esses testemunhos fica muito melhor, muito obrigado a todas do blog.

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