29 dezembro 2012

cabelo É identidade



A FORÇA DO CABELO COMO IDENTIDADE AFRO-DESCENDENTE

Por Lays Peixoto e Nayane Leão
A importância de trabalhar com cabelo afro é também uma forma de manter a cultura viva entre a sociedade. Em Maceió o trabalho com tranças é raro e tem o custo em média de R$180,00. Porém, existem profissionais competentes que trabalham em salões e até mesmo em suas próprias residências. Como é o caso de Joseane dos Santos e Ivete Santos que são da mesma família e aprenderam a trançar cabelos juntas.  


 “Há pouco mais de dez anos, através de uma moça que foi fazer tranças na minha irmã, fiquei olhando como ela fazia, e quando as tranças dela folgavam, e a moça que ajeitava não morava mais em Maceió, eu ajeitava. Fui fazendo também nas minhas sobrinhas e algumas pessoas ficaram interessadas. E quando gostavam dos cabelos dos meus familiares, eles davam a minha referência. O trabalho de trançadeira virou a minha paixão!” conta Ivete Santos como surgiu o interessou por seu trabalho.  

Carnaval e final de ano são os períodos mais procurados e os penteados são variados: Kanekalon, Permanente afro, Tiara, Trança rasteira, Tranças enraizadas, Tererê, Dreadlock, Trança nagô, Black Power, fazem a cabeça dos negros e mulatos maceioenses. 
“Muita gente acha que trabalhar com cabelo crespo é fácil. Mas, é o tipo de cabelo mais difícil de trabalhar, pois é um cabelo frágil, e que requer um cuidado maior. Aqui em Maceió existem pessoas que não trabalham bem. Ainda há uma carência muito grande de profissionais de cabelo afro.” disse Joseane.

Além da carência do trabalho o preconceito ainda é forte, pois, as pessoas estão ligadas ao padrão de beleza que é imposto pela mídia de que pra ser “bom” tem que ser liso.  Sentir-se bem com o seu próprio estilo é o que Isabela Barbosa, 24 anos, professora de Sociologia e Filosofia diz para todas as meninas e mulheres que tem vergonha de ter o cabelo crespo ou cacheado.

“Eu sempre gostei do meu cabelo, mas quando eu tinha 19 anos resolvi alisar, fiquei dependente da escova e da chapinha. “Alisar nunca mais”. O fato de não querer assumir meu cabelo, depois me deixou frustrada, porque eu estava em busca de um cabelo que não era meu arrependida, conta Isabela. 

Cabelo ruim, de Bombril, pixaim, balaio duro... São como os cabelos de mulheres negras são conhecidos. O cabelo afro é a identidade estética do negro, e a relação que cada um tem com o seu cabelo é muito particular; de tal forma que o fato de saber ou não lidar com ele determina a forma de ser aceito perante a sociedade. A partir daí começa uma disputa em casa, em frente ao espelho, no trabalho, na escola e em vários outros lugares... De qual é o melhor cabelo, de qual é o melhor jeito de se usar os cachos e qual é a melhor maneira de defender a sua identidade.  
 E apesar de estarmos no século XXI, o preconceito ainda faz parte da vida das pessoas. Isabela passa por isso em seu ambiente de trabalho. O diretor da escola em que trabalha deixa claro que prefere que ela use o seu cabelo preso. Mas os seus alunos admiram os seus cachos soltos e acham bonito seu estilo.

***
 Zezito de Araújo, membro do Conselho Geral do Memorial Zumbi, historiador, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Militante do Movimento Negro e Coordenador do curso de história do Centro Universitário CESMAC, fala sobre a identidade negra, o cabelo afro e de como se deu o processo do entendimento de estética ideal para o negro.

1. Como se deu o processo de identidade da construção da pessoa negra no Brasil?  

Zezito: No período colonial as mulheres negras necessariamente não tinham preocupação com a estética no sentido de incorporar os valores europeus, pois, a sua condição de escravizada não dava espaço pra que ela competisse na questão de imagem. 

2. Por que as mulheres negras sentiam a necessidade de se igualar a mulher branca na questão estética?

Zezito: A mulher negra incorporava alguns elementos da cultura branca europeia mesmo que ela não tivesse a possibilidade de fazer o penteado e se moldar por aquele padrão de beleza. Mas, foi a partir da presença negra aqui no Brasil, que esse padrão de beleza ideal de pessoa branca e superior é imposto no processo da formação da sociedade brasileira. A partir da abolição da escravatura o que ocorre é o próprio mercado começando suas relações humanas e exigindo da mulher negra a estética branca.

3. Você já sofreu ou presenciou algum tipo de preconceito?

Zezito: Lembro-me de um fato interessante... Certa vez eu estava conversando com uma amiga minha e passei a mão no cabelo dela. E ela disse: Você está passando a mão no meu cabelo pensando que ele é liso é? E eu disse: Não! Eu passei a mão no seu cabelo por que eu tenho um instinto de passar a mão na cabeça das pessoas. E ela reforçou: Eu sou negra e jamais você vai encontrar um cabelo liso.  

4. Muitas pessoas passam por preconceito em seu ambiente de trabalho por conta do cabelo, o que você acha disso?

Zezito: Depende muito da situação do trabalho que você está exercendo, por exemplo, você não vai para uma igreja com roupa curta, pois o padre não deixa você entrar, por que os valores culturais para o ritual do cristão exige que você use determinadas roupas. Assim como alguns trabalhos exigem determinados tipos de penteados. Agora se o empresário falar “Eu não quero que você venha para o emprego por que você é negra” aí você pode até penalizá-lo por ser preconceito, mas em determinados trabalhos você não pode ir com qualquer tipo de roupa ou penteado.

5. O mercado de cosmético teve que se adequar a pele negra ou a pele negra que teve que se adequar a ele que até então só fazia produtos para pessoas brancas?  

Zezito: A indústria de cosméticos era muito falha porque ela achava que a pessoa negra teria que se adequar aos produtos e cosméticos dos brancos, mas com o tempo eles perceberem que estavam perdendo uma grande parte do mercado e então ele começou a produzir cremes e maquiagens, pois o problema não residia na pele, e sim na capacidade da indústria em se adequar-se. 

***

Lays Peixoto e Nayane Leão são acadêmicas de Jornalismo no Centro Universitário CESMAC.
Fotos: Lays Peixoto

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Antes de deixar seu comentário consulte o próprio blog no "Pesquise aqui", às vezes sua dúvida está em outra postagem. Mas se você não encontrar no blog, deixe seu comentário, tire suas dúvidas sem timidez! Eli e eu vamos fazer o possível para ajudá-las. Obrigada por estar conosco, xero nos cachos! xD